Como era de costume, o Conselho de
Anciãos se reuniu para dar ao Astronauta as últimas instruções antes que
ele empreendesse a viagem ao planeta distante.
“-Faz milhares de anos, disse o
decano, nossa conquista do espaço foi um acontecimento no qual se
colocou grandes esperanças. Naquele tempo se fazia um minucioso
relatório e um cuidadoso histórico de todos aqueles que enviamos para
conquistar o novo mundo”.
“- A experiência nos tem demonstrado,
continuou o Presidente do Conselho, que até agora nossos esforços têm
sido inúteis e nossas esperanças infrutíferas”.
“- Mas continuamos sem nos dar por
vencidos, comentou um conselheiro que tinha fama de otimista e
empreendedor, e por isso você está aqui, diante do Grande Conselho e
pronto para empreender a mesma aventura de seus ancestrais”.
“- Do mesmo que eles você foi
treinado cuidadosamente- lhe lembrou o Chefe do Projeto Astral, e,
também, do mesmo modo que eles, conhece os riscos da viagem e sabe que
pode morrer antes sequer de chegar ao ponto de destino. Vivemos num
mundo livre. Você ainda quer, apesar de todos esses riscos, ser nosso
emissário? “
“- Sim, Senhor”, respondeu o
Astronauta com voz firme e segura.
Os anciãos se olharam uns aos
outros e sorriram, com um sorriso amável, mas impregnado de ligeira
tristeza.
“Ainda que o tempo de viagem
seja bastante exato, em algumas ocasiões pode variar por fatores alheios
ao nosso controle”, disseram.
“- Isso não importa, afirmou o
astronauta. Estou certo de que chegarei e é o que quero: estar
quilômetros longe daqui, no distante planeta para levar a arte da Paz.
Falem-me agora daquele mundo desconhecido. Segundo os treinadores do
Campo Espacial, somente vocês poderão me dizer qual o verdadeiro perigo
que enfrentarei quando chegar lá”.
O Supervisor de Condições
Atmosféricas tomou a palavra: “Você, disse ele, viajará perfeitamente
protegido dentro de uma cápsula, onde terá calor, alimento e o máximo de
proteção que nos foi possível dar, até hoje, a qualquer um de nossos
viajantes, mas uma vez que abandone a dita cápsula, nada poderemos fazer
por você”,
“Eu sei, replicou o homem, e
por isso me equiparam com grande dose de força, valor, ternura,
compaixão e, em geral, todas as virtudes que se necessita para
sobreviver em qualquer meio, acolhedor ou hostil”.
Novamente os anciãos trocaram
preocupados olhares e o Decano falou com voz grave e triste: “A
atmosfera daquele planeta tem elementos que apagam da memória todos os
nossos ensinamentos”.
“- Mas eu me lembrarei, afirmou
com veemência o astronauta”. E os anciãos olharam com tristeza e um
pouco de cansaço; quantas vezes tinham ouvido aquela afirmação...
“- Quase ninguém recorda”,
disse o Chefe do Centro de Memória. Só um de nossos enviados, cujo
número já esquecemos, aprendeu bem a lição e deu nossa mensagem”.
“- Eu serei igual a ele! Eu não
esquecerei o propósito da minha missão!”.
“- Nos confortaremos se lembrar
parte dela”, disse o que controlava a memória, que era um ancião tão
cético, quanto todos que haviam desempenhado seu cargo.
“- Parte dela não, voltou a
afirmar o o astronauta, eu não posso me esquecer que a minha missão é
de amor e concórdia”.
“- Se faz tarde, cavalheiros”,
cortou com brusquidão o Guardião do Tempo..
“- Uma última pergunta”, gritou
o astronauta. “O que aconteceu com aquele que lembrou a lição e que
disse a mensagem?”.
“- Foi crucificado”, respondeu
com simplicidade o Diretor de Historia do Espaço.
“- E aqueles que recordaram
mais ou menos?”, insistiu o astronauta, apesar de que se aproximava a
hora em que deveria penetrar na cápsula.
“- Foram perseguidos, torturados, presos
e do mesmo modo que o primeiro, quase todos morreram de forma violenta”,
explicou o Juiz das Causas Perdidas.
“- Você ainda tem tempo de
desistir”, finalizou o Decano, mas dentro de dois minutos será tarde”.
“- Não desistirei e não
esquecerei, não esquecerei de nada de que falamos aqui”.
O Chefe do Controle das Emoções
olhou demoradamente o Astronauta:
“Esquecerá e se transformará em um homem
comum, voltado para as coisas mundanas e ambicioso como os que povoam o
planeta distante. Esse é, na realidade, o verdadeiro risco que está
correndo”.
“- E minha defesa contra
isso?".
“- Não esquecer, não esquecer a
mensagem”, gritaram em coro os anciãos. Mas o astronauta não pode
responder, pois a cápsula se tinha cerrado automaticamente.
Tudo aconteceu como lhe haviam
dito. Estava envolvido por um suave calor, desfrutava uma beatitude e se
sentia tão seguro dentro daquela cápsula, como nunca havia estado. A
escuridão que o envolvia era sedante e suave.
Ainda que lhe tivessem dito que
a viagem era longa, havia perdido a noção do tempo, melhor dizendo, o
tempo parecia ter se detido e ele não tinha nenhuma pressa de que ele
avançasse novamente. Algumas vezes sonhou, noutras rezou e pediu forças
para levar a cabo sua missão, mas principalmente repassou a mensagem
várias vezes. Sabia palavra por palavra, de trás para a frente; ele não
esqueceria. Ele não seria afetado pela atmosfera hostil do planeta
distante, nem se converteria num ser desleal como havia descrito o Chefe
do Controle das Emoções.
Finalmente a viagem terminou.
Foi arrancado da cápsula e ainda que ficasse ligada a ela por alguns
segundos, uma luz fortíssima apenas pressentida, feriu seus olhos cegos,
ruídos ameaçadores e ensurdecedores estiveram a ponto de estourar seus
ouvidos.
Um frio mortal penetrou em seus
ossos e de um golpe brutal foi separado da cápsula em que viajara.
Mas tudo aquilo eram sensações
externas; o terrível, o verdadeiramente terrível apareceu no momento em
que sentiu que começava a esquecer, a esquecer tudo, irremediavelmente.
Primeiro se apegou a recordação
com todas as forças de sua mente treinada no Centro de Memória, mas ia
resvalando, resvalando...
Agitou os braços no ar,
desesperadamente, como se um ato físico pudesse deter aqueles momentos e
tudo foi inútil...
Na atmosfera hostil sua memória
se diluía.
Estaria destinado a ser igual a
todos que o precederam? Estaria ele condenado à avareza, à maldade, à
solidão, à ilusão passageira da vida terrema?
Quando teve plena consciência
do risco que corria, lançou um grande gemido e soluçou como nunca antes
alguém havia soluçado, ou como haviam soluçado todos aqueles que, como
ele, perdiam o paraíso.
...
A jovem e inexperiente enfermeira olhou
para o médico e perguntou com ingenuidade:
“- Por que choram assim todos os
recém-nascidos?”.